Bibliotecas Digitais – Conceito
A expressão “Biblioteca Digital”, engloba dois termos com distintos significados:
“Biblioteca” e “Digital”. Uma análise de cada um desses termos revela-se
importante para uma melhor compreensão do conceito de Biblioteca Digital.
A palavra Biblioteca provém de dois termos gregos: Biblion (livro) e théke
(depósito). Assim, pela análise etimológica do termo, pode-se definir Biblioteca
como depósito de livros. Contudo esse depósito deverá ter um carácter
organizado e poderá não se cingir apenas a livros. Segundo a The free online
Dicionary, Biblioteca é um “lugar onde materiais artísticos e literários como livros,
periódicos, jornais, panfletos, discos e cassetes são guardados para leitura,
referência ou empréstimo”2. Acrescenta ainda que uma Biblioteca pode ser: (1)
Uma colecção desses materiais, especialmente quando arrumados de forma
sistemática; (2) Uma sala numa casa privada para guardar essas colecções; (3)
Uma instituição ou fundação que mantém essa colecção. A sistematização e
organização são aqui apresentadas como característica das Bibliotecas. Portanto
não basta ter uma colecção de obras num determinado espaço, mas é
necessário que ela esteja “arrumada de forma sistemática”. Entretanto, outros
autores ignoram esse carácter organizado das Bibliotecas. Por exemplo, Keller et
al. (2003) definem Biblioteca como “Uma colecção de informações
seleccionados para utilização por uma determinada comunidade particular”.
Qualquer que seja a definição apresentada para este conceito, não deverá
ignorar o carácter organizado e estruturado das Bibliotecas. Ter uma Biblioteca
não significa apenas possuir uma colecção de livros ou outros recursos como
jornais e discos. É necessário que estejam arrumados para que o processo de
pesquisa seja optimizado; é necessário saber o que se tem e onde encontrá-lo.
O termo digital é definido pelo The free online Dicionary como algo “expresso sob
a forma numérica, especialmente para uso por computadores”3. Assim, o meio
físico no qual um determinado documento é armazenado pode ser considerado
determinante para se concluir se este é ou não digital (Noerr, 2003). Esta é uma
generalização, segundo o autor, mas suficiente para se compreender o conceito
de Biblioteca Digital. Contudo o manuseamento do material é igualmente
importante quando este é considerado estar em formato digital. Portanto, ainda
segundo Noerr, 2003, é digital, aquilo que pode ser representado e lido pelo
computador.
Pela análise do significado dos termos que o compõe pode-se dizer, que
Biblioteca digital é uma colecção de materiais artísticos e literários como livros,
periódicos, jornais, panfletos, discos e cassetes guardados para leitura,
2 Disponível em http://www.thefreedictionary.com/library consultado a 20 de Novembro de 05
3 Disponível em http://www.thefreedictionary.com/digital consultado a 20 de Novembro de 05
referência ou empréstimo, organizados de modo sistemático e de forma que
possibilite o seu uso pelo computador. Entretanto, o conceito de Biblioteca digital
também não é ainda consensual. Vários autores apresentam, distintas definições.
Segundo Noerr, 2003, existem duas alternativas convencionais para o conceito
de Bibliotecas Digitais: “Bibliotecas que contém material na forma digitalizada e
Biblioteca que contém material digital.” O material digital é considerado aquele
que “nasceu digital”, como é por exemplo um texto dactilografado recorrendo ao
uso de um processado de texto por exemplo. Neste caso o material é
representado em computador e é de fácil manuseio pelo computador. Por outro
lado, material na forma digitalizada pode ser visto como aquele que teve de ser
convertido para o formato digital, conservando algumas limitações nas
possibilidades do seu manuseio. Noerr, 2003, afirma ainda que “o aspecto
realmente importante em Bibliotecas Digitais, é a possibilidade ter materiais
armazenados em computadores, de modo que permita a sua manipulação e
distribuição de uma forma que as versões convencionais do material não
poderiam ser.”
Para a Digital Library Federation (DLF), Biblioteca Digital é compreendida como
Organizações que providenciam os recursos, incluindo pessoal especializado, para
seleccionar, estruturar, oferecer acesso intelectual para, interpretar, distribuir,
preservar a integridade de, e assegurar a persistência ao longo dos tempos de
colecções de trabalhos digitais afim de que possam estar prontos e disponíveis
economicamente para uma comunidade determinada ou por um grupo de
comunidades (Water, 1998).
Além de destacar os aspectos de disponibilização e organização dos recursos,
esta definição enfatiza o factor económico inerente às Bibliotecas Digitais. Isso
porque, uma das medidas essenciais da qualidade de serviço, segundo afirma o
autor, é o custo e para a DLF uma boa Biblioteca Digital tem consciência do
factor custo e trabalha visando controlar os seus efeitos.
Uma questão fundamental nas Bibliotecas Digitais, deverá ser o prover de uma
visão coerente de uma vasta colecção de informação (Lynch & Garica-Molina,
1995). Neste sentido, defendem os autores, uma ênfase apenas nos conteúdos
em formato digital é demasiadamente limitativo. O objectivo deverá ser o
desenvolvimento de sistemas de informação que providenciam o acesso a uma
colecção coerente de materiais, que estarão cada vez mais em formato digital.
Os autores defendem ainda nesse contexto, que o valor dos materiais disponíveis
em Bibliotecas Digitais deverá ser melhorado com a possibilidade de se integrar
materiais inicialmente em uso nas Bibliotecas tradicionais. Assim, Bibliotecas
Digitais deverão ter como alvo tanto materiais impressos como digitais. Portanto,
nota-se uma “continuidade muito forte entre a missão e os objectivos das
Bibliotecas tradicionais e os objectivos dos sistemas de Bibliotecas Digitais”
(Lynch & Garica-Molina, 1995). Ao incluir tanto as colecções digitais como as
tradicionais, as Bibliotecas Digitais podem ser vistas como “a face digital das
Bibliotecas tradicionais” (Cleveland, 1998), funcionando como uma extensão das
Bibliotecas tradicionais, e fornecendo aos académicos o acesso à informação em
distintos formatos, depois de ser avaliado, organizado, arquivado e preservado
(Millan 1998). Cleveland, 1998, apresenta um conjunto de características que
deverão ser inerentes a qualquer Biblioteca Digital:
• Incluir materiais digitais que existam fora das fronteiras
administrativas e físicas de qualquer Biblioteca Digital.
• Englobar todos os processos e serviços que constituem a espinha
dorsal e o sistema nervoso das livrarias. Entretanto esses processos
deverão ser revistos e melhorados de forma a contemplarem as
diferenças entre materiais digitais e tradicionais.
• Dar uma visão coerente de toda informação contida dentro da
Biblioteca, independentemente da sua forma ou formato.
• Servirá comunidades particulares como acontece com as
Bibliotecas tradicionais, não obstante o facto dessas comunidades
poderem estar dispersas.
• Requererá que tanto as habilidades dos bibliotecários como a dos
informáticos sejam utilizadas afim de que a sua implementação
possa ser viável.
• Não será um sistema digital único que ofereça acesso instantâneo a
todas informações, para todos os sectores da sociedade, de
qualquer parte do mundo. Isso seria absolutamente irrealista. Será
antes uma colecção de recursos e sistemas dispersos para
comunidades e grupos de utilizadores específicos e criado com
propósitos específicos.
Os elementos que compõe uma Biblioteca Digital, são portanto diversos e é por
conseguinte necessário disponibilizar mecanismos adequados para o seu
acesso e manutenção. Witten & Bainbridge, 2003, apresentam a Biblioteca Digital
como “uma colecção focalizada de objectos digitais, incluindo texto, vídeo e
áudio, incluindo métodos de acesso, para selecção, organização e manutenção
da colecção”. Os autores incluem no grupo de “Objectos Digitais” os objectos
3D, simulações, visualizações e realidade virtual. Selecção, organização e
manutenção são vistos como elementos centrais para a noção de Biblioteca
Digital. Todos os objectos não são criados da mesma forma. A sabedoria que o
bibliotecário coloca na criação da Biblioteca Digital reside exactamente aqui, isto
é, na decisão sobre o que colocar na colecção e avançar com os mecanismos
adequados para organização e manutenção dessas informações. Para Witten &
Bainbridge, 2003, “isto é exactamente o que distingue uma Biblioteca Digital da
anarquia que se pode chamar à World Wide Web”. Portanto é necessário que a
Biblioteca Digital, apesar de não ter paredes, possua fronteiras. Se há algo que
entra na colecção é porque certamente algo deverá ficar de fora. Cada colecção
terá consigo um propósito bem articulado que estipula os objectivos e os
princípios norteadores da decisão sobre o que deverá ser colocado e o que
deverá ser deixado de fora. Isso é o que não existe na Web. Portanto a distinção
clara aqui apresentada entre a Web a Biblioteca Digital, reside exactamente na
selecção e organização. Mesmo as páginas Web que apresentem objectos
digitais de boa qualidade acompanhados de mecanismos de acesso e
recuperação não poderão ser considerados Bibliotecas Digitais. Neste último o
processo de inclusão de novas aquisições deverá ser completamente
automatizado não havendo necessidade de nenhuma actualização manual.
Lynch, 1997, refere-se igualmente às diferenças entre a Biblioteca Digital e a
Web:
Ouvimos às vezes a Internet a ser caracterizada como a Biblioteca do mundo para
a era digital. Esta descrição não permanece nem mesmo depois de um exame
casual. A Internet e particularmente a sua colecção de recursos multimédia
conhecida como World Wide Web, não foi desenhada para suportar a publicação
organizada e a recuperação de informação como são as Bibliotecas. Foi
desenvolvida como aquilo que podemos chamar de um repositório caótico para o
output colectivo das imprensas escritas digitais do mundo... A Net não é uma
Biblioteca Digital.
Biblioteca Digital não significa entretanto Biblioteca Virtual. Quando uma
Biblioteca disponibiliza um portal para acesso a informações que se
encontram em outro local, está-se perante uma Biblioteca Virtual (Witten &
Bainbridge, 2003). Grande parte do que é disponibilizado nessas
Bibliotecas abrange informações disponíveis na Web. A informação
encontra-se portanto em formato digital e disponibilizável para acesso via
Web Browser. Haverá igualmente alguma metadata, nomeadamente o
título e eventualmente o autor. Com a construção de Bibliotecas Virtuais,
trazem-se dois elementos como valores acrescentados: Selecção de
conteúdo e melhor organização de dados com base em metadatas.
Várias são as definições que podemos encontrar sobre o conceito de Bibliotecas
Digitais. Alguns autores possuem definições similares enquanto que outros se
contradizem (Mohd & Yusof, 2003). Esse conceito continua ainda a mudar com o
tempo (Bowden & Rowlands, 1999). Pela análise de diversas definições de
Bibliotecas Digitais, consegue-se identificar um conjunto de elementos comuns:
• Servem uma comunidade específica ou um grupo de comunidades.
• Possuem uma estrutura unificada e lógica.
• Incorporam os conceitos de aprendizagem e de acesso.
• Requerem o uso tanto de recursos humanos (bibliotecários) como
tecnológicos.
• São amplas e persistes ao longo do tempo.
• São bem organizados e bem geridos.
• Possuem diferentes formatos.
• Fornecem um mecanismo de acesso fácil, rápido e diversificado.
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Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirGostei do texto sobre esse tipo de bibliotecas!
ResponderExcluir;D
obrigado.
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